Isso me deixa confusa

Uma moça abre a janela de seu quarto alugado. Contas, contas, contas… “Tudo é movido a dinheiro”, pensa, antes mesmo de dar bom dia ao Sol.  A moça é o típico exemplo de cidadã interiorana que veio estudar na capital. Sua cidade natal, Paraíso das Ilusões, como o próprio nome já diz, não promete muita coisa. No máximo chegaria a gerente de uma loja de Shopping. Claro, Paraíso das Ilusões tem pouco mais que trinta mil habitantes, cinco praças, trinta e oito igrejas, três shoppings, um cinema, nenhum teatro e meia biblioteca.

Sua desilusão, tão grande, foi capaz de arrastá-la ao mundo obscuro dos pensionatos no subúrbio, não foi com um namorado sem vergonha que abusou de sua inocência rústica, tampouco foi com o chefe que descontou de seu salário de estagiária os dois dias que faltou no mês passado. Faltou por estar internada, mas até então isso nada justificava.

“Bendita Lei de Estágio”, foi seu segundo pensamento em voz alta, ao lembrar-se da ocasião…

O que aconteceu com a jovem moça foi que ela acreditou no que não devia, confiou em quem não podia, e… bem, o leitor – se é que há algum – bem que pode começar a prever o desfecho do caso.

Tudo ia muito bem em sua empreitada pelo mundo caótico da cidade grande. Na faculdade seu desempenho era exemplar, rapidamente também tornou-se representante estudantil, dava discursos, participava de reuniões, movimentava seu curso, as pessoas. O estágio na área também não foi difícil, sendo muito carismática e dona de um raciocínio rápido deixou com que seus concorrentes buscassem novas oportunidades.

O problema foi ela que começou a pensar demais…

“Como será que ele está?”

– Alô, mãe?

– Oi filha! Tudo bem?

-Mãe, por que para sermos felizes precisamos trabalhar muito e comprar coisas caras, por que existe exploração de mão de obra – não só infantil – abuso sexual, inveja e corrupção? Por que a “Faz com Coca” patrocinou a campanha do Ruge e ele fez guerra?

– Ah, minha filha, porque a humanidade deixou com que seu lado mal tomasse conta dela…

– Mas como? será possível que não dá pra perceber? Será que o dono da Magnus não sabe que seu produto é responsável por milhões de mortes?

– Minha filha, não me deixe confusa… as coisas são assim mesmo…

foi a resposta da mãe… a moça desligou o telefone, juntou suas roupas, seu diploma e seus sonhos, colocou-os em uma mala, minuciosamente dobradinhos e encaixados, despediu-se dos amigos da, república onde morava, do namorado e da vizinha de porta e foi para o subúrbio.

Agora é gerente de uma das 178 lojas das Casas Sabia

e ponto.

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