Thomas Mann e a porcaria da televisão

Acabo de concluir a leitura do romance A morte em Veneza do alemão Thomas Mann. Tal leitura me fez começar a pensar várias coisas sobre a televisão. Mas, antes de entrar nas explanações em torno da obra e do universo televisivo, sinto-me no dever de dar uma breve explicação de quem foi este notável escritor.

Thomas Mann foi um grande homem de seu tempo, nasceu no fim do século XIX e faleceu em 1955. Alemão de nascimento, o escritor tem suas origens ligadas ao mundo tupiniquim, pois é filho da brasileiríssima Julia Mann (que por sua vez tem origens alemã, por parte de seu pai). Devido a suas origens judaicas, viveu praticamente toda sua vida adulta exilado de sua terra natal. Produziu uma vasta obra, entre ela estão clássicos como A montanha mágica e Dr. Fausto (este com a simpática historinha de um compositor que vendeu a alma ao “cão miúdo”). O universo romanesco , ou seja, o mundo da obra de Mann é essencialmente burguês, e é nesse ponto que chego a comparação com o universo televisivo.

Acredito que a maioria de nós já tenha constatado a futilidade dos diálogos, da rotina e dos ambientes das telenovelas que tomam em média cinco horas diárias da programação da rede globo. Tomarei a Globo como exemplo pois é a preferida em nossos lares. Aqui em casa, por exemplo, é o único canal que pega, ainda assim, bem mais ou menos.

Confissões a parte, vamos combinar que esta última gororoba televisiva do Manoel Carlos é pra acabar com qualquer tipo de engajamento que uma novela possa ter. Tomada dos diálogos mais imbecis, e afastados do nosso cotidiano, a obra ainda deturpa valores básicos da sociedade, como o respeito aos familiares, por exemplo. É um tal de irmã chamando a outra de invejosa, a mãe chamando a filha de gorda e irmão se pegando na porrada que até assusta. Gente, quantas crianças não estão assistindo a essa porcaria e internalizando a ideia que a falta de respeito é algo completamente normal e aceitável?

Como se já não fosse o suficiente a falta de um conflito um pouco mais profundo que a difícil escolha entre ser modelo e se casar com um mauricinho nerd, a obra ainda extrapola todos os limites da luxúria. Por acaso vocês já observaram que todo mundo é extremamente podre de rico? E o que é pior, ninguém de fato pega no batente, a não ser a boa e velha empregada doméstica, que tem que ficar em pé ao lado da mesa, enquanto os patrões boa vida enchem o bucho. Mas a moça é muito bem recompensada, pois, ao contrário dessas verdadeiras salvadoras do lar das grandes cidades, as domésticas do Manoel Carlos não passam quatro horas por dia na condução, apesar de morarem no Rio de Janeiro.

Bem, e o que isso tudo tem a ver com Thomas Mann? Simples, o universo que o autor de A morte em Veneza apresenta ao leitor em sua obra não é menos fútil que o de Manoel Carlos. Mas, a grande sacada, é que Mann consegue inserir no meio das férias confortáveis de seu protagonista,  em um luxuoso hotel da sedutora Veneza, o problema da Cólera que matou milhares de pessoas na Europa do início do século. Outro aspecto que deixa qualquer noveleiro morto de inveja da obra de Mann é a capacidade que o autor tem de criar cenas que deixam o leitor muito mais enfeitiçado pela narrativa que a própria cena televisiva, que nem exige que o telespectador gaste sua criatividade formando as imagens em sua cabeça. E finalmente, um último aspecto que gostaria de colocar aqui é que Mann não faz troça de tipos sociais, como a “galera do plim plim” adora fazer com nordestinos e homossexuais, por exemplo. E olhem vocês que A morte em Veneza foi publicada na Alemanha de 1912.

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