A questão histórica no romance Dois Irmãos de Milton Hatoum

O romance Dois Irmãos, do escritor Milton Hatoum, parece em muitos momentos vir a colaborar com a compreensão de diversos momentos da história do Brasil, no século XX, e especialmente de Manaus até o período de criação da Zona Franca.

Este diálogo com a história recente de nosso país muitas vezes ocorre de forma bastante discreta como por exemplo na página 96 da edição da Companhia de Bolso: “Noites de blecaute no norte, enquanto a nova capital do país estava sendo inaugurada”. Outro momento que sentimos esta aproximação romance-história de maneira sensível encontra-se na página 67, onde verificamos a ida de Omar para São Paulo, no ano de 1956, exatamente o ano marcante no êxodo rural brasileiro: “ O que não estava na mira do calculista era a ida de Omar para São Paulo. Naquele ano, 1956, o Caçula já tinha abandonado o Galinheiro dos Vândalos…”.

Da mesma maneira que encontramos pistas discretas do momento histórico em que se passa cada capítulo do romance de Hatoum, também encontramos citacões marcantes de certos fatos, como por exemplo, o fim da segunda guerra, em que a primeira pista surge logo no início da narrativa, na página 11: “ Quando Yaqub chegou do Líbano, o pai foi buscá-lo no Rio de Janeiro. O cais da praça Mauá estava apinhado de parentes de pracinhas…” Avançando algumas páginas confirmamos que realmente a descrição do espaço da praça Mauá no momento do retorno de Yaqub coincidia com o fim da guerra: “Talib concordou, Sultana e Estelita propuseram um brinde ao fim da guerra e à chegada de Yaqub.” (HATOUM, 2006, p.20).

Durante a leitura do romance, observando os elementos históricos que ele apresenta, podemos notar outra forma de ocorrência de fatos históricos dentro do romance, trata-se da narração de determinados acontecimentos que eram comum ao período em questão, um exemplo que ilustra muitíssimo bem esta forma é o momento de captura e espancamento do prof. Antenor Laval,

“Laval foi arrastado por um veículo do exército, e logo depois as portas do Café Mocombo foram fechadas. Muitas portas foram fechadas quando dois dias depois soubemos que Antenor Laval estava morto. Tudo isso em abril, nos primeiros dias de abril.” (HATOUM, 2006, p.142)

neste trecho, mesmo não tendo nenhuma referência direta ao golpe Militar em abril de 64, parece óbvio que a perseguição ao professor tenha ocorrido por conta disso.

Em outra passagem mais adiante podemos nos certificar que estamos diante do Golpe Militar de 64 na Manaus provinciana: “… a Cidade Flutuante estava cercada por militares.” e continua “Eles estão por toda parte” ((HATOUM, 2006, p.147).

Para concluir, nos parece necessário apontar que, apesar das inúmeras marcas de historicidade, Dois Irmãos não deve ser considerado um romance histórico. Isto pode ser facilmente notado pela narrativa não contar com elementos comuns a este tipo de romance. como por exemplo, narrar acontecimentos reais usando personagens que existiram mesclado com personagens e fatos fictícios, como faz Ruy Tapioca em A república dos Bugres, romance de ficção histórica que trata da vinda da família real portuguesa em 1808 para o Brasil e a guerra do Paraguai.

Trabalho apresentado na Semana de Letras da UFPR de 2008.

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