Compaixão, misericórdia, salada de tomate e novela das nove .

Aproveitando a remanescente empolgação que o início do ano sempre traz em nossas vidas, proponho aqui uma discussão que somente o maravilhoso mundo da fila do banco pode nos proporcionar.

A Caixa Econômica é mesmo uma loucura, parece que não há sequer um dia que ela esteja tranquila, é sempre aquela fila. Enquanto alguns reclamam, leio. Aconteceu que dessa vez não tinha livro, e, se não tenho um livro faço uma coisa terrível, presto atenção nas conversas alheias, afinal, preciso de matéria-prima, de fonte de inspiração para meus textos.

Dessa vez o papo era sobre os ensinamentos de Cristo. Após a moça mais nova ralhar com aqueles senhores super saudáveis que, apesar de não precisarem, usufruem do atendimento preferencial, deixando todos os pobres mortais abaixo de 60 anos amargurando na fila, a moça mais velha lembrou que precisamos ter compaixão com pessoas assim. Imediatamente a menina revidou: “Compaixão ou misericórdia?”. A mais velha afirmou que tanto fazia, que era a mesma coisa. E o papo parou por ali mesmo… Se não me engano, começaram a falar da roupa imoral que não sei quem usava na Missa do Galo.

A essa altura, parei de escutar o papo alheio para refletir sobre compaixão e misericórdia e me lembrei que de modo algum tais sentimentos são a mesma coisa. Em 2009 trabalhei em uma escola onde a única coisa legal era as leituras e discussões que ela propunha. Naquele ano lemos um livro chamado Pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comté-Sponville. O autor pontuava alguns sentimentos humanos, entre eles, se não me falha a memória estavam os dois acima. Fica a recomendação.

Apesar de Sponville quase igualar compaixão e misericórdia, é necessário atentar-se a diferença prática que esses sentimentos apresentam atualmente. Compaixão é o mesmo que pena, sofrer por que o outro sofre. Misericórdia é a compreensão do sofrimento alheio, pode-se até sofrer com o que sofre, mas a misericórdia consiste em serenidade diante das infelicidades, de modo algum ela poderá gerar revoltas. A compaixão sim, em muitos casos gera revolta, indiferença ou ainda mais problemas. Em primeiro momento essa indicação pode parecer confusa, mas com alguns exemplos, talvez as coisas fiquem claras.

Quando vemos um morador de rua, ou uma criança abandonada sentimos uma peninha, e logo damos um dinheirinho, assim todos ficam felizes, e nós ficamos em paz com nossa consciência, pois somos muito bonzinhos, temos compaixão pelo nosso próximo. Isso é lindo, mas infelizmente não resolve a questão, o morador de rua ou a criança continuam na mesma condição, agora ainda mais alimentada pela nossa pseudo-generosidade. Mas, se olharmos com misericórdia para aquele que sofre, seja do mal que for, estaremos compreendendo o sofrimento dele e poderemos agir de modo a ajudá-lo efetivamente, seja em orações, seja em projetos sociais, seja em conversas reflexivas. A misericórdia exige reflexão, auto-crítica. Claro que ser misericordioso toma um pouco mais de nosso tempo, e nessa época em que tempo é dinheiro e dinheiro é felicidade, ter compaixão parece uma solução muito mais prática. Assim aquela criança logo nos deixa em paz, ao passo que o problema social segue fortalecido.

Sábado a noite estava vendo a novela das nove. O Fred foi preso, e a Candê foi correndo na casa da Beth implorar que a distinta senhora retirasse a queixa contra seu pobre filhinho! Epa! Espera aí! Temos aqui mais um exemplo de compaixão! O cara é um picareta, assassino, sem vergonha mas deve ser solto por que a mãe dele sofre? Mas todo o mundo é filho de alguém. Olha a rede Globo nos colocando mais um ensinamento frívolo. Uma mãe, tia, ou qualquer um deve ser justo nessa hora. Por mais que doa, deve-se buscar auxiliar a pessoa para que ela melhore, evolua, permitir que ela assuma as consequências de seus atos, não “passar a mão na cabeça”. Não é uma questão de ser cruel, mas de ser justo. Afinal, se nos tornamos eternamente responsável por aquilo que cativamos e se o Criador nos deu o livre arbítrio, nada mais justo que respondamos por todos os nossos atos, de hoje e de outrora.

Ser misericordioso talvez pareça até um pouco cruel, mas se quisermos realmente justiça, devemos buscar ser justo, mesmo que às vezes nós, ou alguém que amamos sofra com determinada situação. Encarar os obstáculos da vida com reflexão e responsabilidade sobre nossos atos é muito mais trabalhoso que atribuir nossas desgraças e alegrias a vontade do Criador, porém, um pouco de auto crítica e boa vontade me parece razoável em um mundo tão cheio de revolta e egocentrismo!

E o que a salada de tomate desse título tem a ver com isso? Bem, esse texto foi concebido regado a saborosos tomate cereja! Por hoje é isso. Um 2011 cheio de misericórdia e fé a todos aqueles que buscam!

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  Um comentário sobre “Compaixão, misericórdia, salada de tomate e novela das nove .

  1. JHG
    maio 31, 2011 às 10:58 pm

    Publique mais seus textos são excelentes!!

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