Um convite à superação de algumas ideias

Resenha do texto Raça e história de Claude Lévi-Strauss, apresentada na disciplina de Dimensões Sócio-culturais da Tecnologia, PPGTE.

O capítulo Raça e história, do antropólogo Claude Lévi-Strauss em sua versão em português compõe o livro Antropologia estrutural dois e foi publicado pelas Edições Tempo Brasileiro. A questão racial, no que tange o antigo debate sobre a possibilidade de superioridade de uma raça sobre a outra, é a discussão que abre o texto. Rejeitada essa possibilidade, o autor busca delimitar que as diferenças entre as diversas raças existentes no planeta são fatores muito mais geográficos, históricos e sociais do que propriamente genéticos, ou, para colocar nos termos do autor, biológicos, como acreditou-se durante muito tempo. Essas diferenças contudo, não devem significar a superioridade, e sim diversidade, diversidade cultural, afinal, as razões que por vezes afastam e aproximam os povos, para Lévi-Strauss, são culturais, e não raciais. A defesa da diversidade cultural e da desconstrução de ideias excludentes é a tese defendida pelo autor no capítulo em questão. Nessa linha, ele faz uma crítica às declarações existentes sobre igualdade entre os homens, como por exemplo a da UNESCO, que para ele não levam a diversidade em consideração.
Após delimitar que as diferenças entre os povos deve ser encarada como uma questão cultural, o autor abandona a ideia de raça e passa a discorrer um pouco sobre a diversidade cultural. Ele indica que essas diferenças além de serem fruto do afastamento geográfico, das particularidade do meio e das experiências de cada povo é um fenômeno natural e que jamais deve ser encarada como algo fragmentador. A necessidade de revisão de determinados conceitos como superioridade cultural, racial, e de sociedades como um todo, especificamente da sociedade Ocidental sobre as demais é defendida por Lévi-Strauss durante todo o texto.
Para o autor, qualquer que seja o desenvolvimento (técnico, científico ou cultural) de determinada sociedade ele nunca será um fenômeno isolado, tampouco linear. O que ele defende que é os progressos costumam acontecer de modo simultâneo entre determinadas culturas e que as fronteiras que dividem uma cultura de outra, por exemplo, não são muito passíveis de delimitação, pelo menos não de uma delimitação fechada. Essa simultaneidade garantiria que as coisas acontecessem, se não do jeito que foram, como por exemplo a revolução industrial, teriam ocorrido de uma outra forma e em um outro momento, não muito distante, pois as condições para a irrupção deste ou daquele fenômeno encontram-se em processo de criação em várias comunidades, culturas ou países.
Com o trabalho, o autor propõe a superação de preconceitos que até hoje integram nossa sociedade. Um exemplo é sobre o conceito de “selvagem” e de como os aspectos diversos da nossa cultura nos trazem estranhamento de modo a gerar comparações que busquem a superioridade de uma cultura sobre a outra. Essa busca pela superioridade é um fator segregador e gerador de preconceitos. Lévi-Strauss é bastante propositivo ao determinar que esses fatores nada mais são que diferenças culturais e que isso não deveria significar atraso ou inferioridade, mas, simplesmente, diferença. O texto se coloca bastante combativo a pensamentos socialmente segregadores.
Um fator curioso no trabalho é que logo após defender a ideia de simultaneidade dos processos, Lévi-Strauss propõe um resgate acerca das percepções contemporâneas sobre as sociedades primitivas. Nesse momento o autor indica uma questão crucial para o desenvolvimento de sua argumentação ao indicar que todas as afirmações, as ideias que fazemos das sociedades mais primitivas, e de todas aquelas que antecederam nosso modelo atual, são interpretadas com base em nossas perspectivas, nos conceitos de nossa sociedade. Um dos exemplos apresentados é a pintura rupestre, interpretada como representações de rituais de caça.
Quando ele aborda a ideia de progresso e de civilização, vemos que esses estão arraigados de preconceitos, de ideias segregadoras que, em geral, propõe a superioridade de um povo sobre outro. E seu questionamento é o seguinte: qual é a perspectiva que temos quando falamos em civilização? E por que temos de considerar inferior modelos de civilização que se diferem do ocidental? Ele critica a simplicidade da ciência em determinar as fases da humanidade de modo linear, em que um período é marcadamente seguido pelo outro, pois, em cada parte do planeta as culturas de desenvolviam em estágios diferentes.
Ainda sobre a ideia de progresso o autor indica que tudo é uma questão de perspectiva, de critérios. O que acaba sendo um convite à superação de nosso eterno sentimento de inferioridade em relação às nações europeias e estadunidense. O autor exemplifica a questão indicando que se o critério para o conceito de desenvolvido fosse, por exemplo, a capacidade de adaptação, os esquimós seriam a referência.
Um último aspecto abordado que merece destaque é a desmistificação em relação à história estacionária e história cumulativa. Na soma de nossos muitos preconceitos, muitas vezes acreditamos que certas culturas estão “estacionadas” que não se desenvolvem mais. Tal ideia é desconstruída, pois o leitor pode verificar que enquanto há população e intercâmbio entre elas, há desenvolvimento. O conceito de história estacionária passa a ser quase obsoleto, e mais um preconceito aqui é desestruturado.
Ao final do texto, Lévi-Strauss explica que a ideia de superioridade cultural é uma absurdo sob o argumento de que os avanços sociais são cumulativos, nada é totalmente original, mas evolução de técnicas e processos iniciados anteriormente, muitas vezes por povos que vieram antes. O que faz todo o sentido, e o exemplo do autor para isso é que as bases da agricultura moderna tem suas origens na cultura romana, por exemplo, que tem suas influências da agricultura desenvolvida pelos egípcios. Vemos então que os processos humanos consistem muito mais em uma cadeia de muitos processos que em determinados momentos apresentam picos, como as revoluções neolítica e industrial. E conclui defendendo a necessidade de reconhecimento da importância da diversidade como fator agregador às culturas, pois só assim seria possível uma “coligação” de culturas à nível mundial.


REFERÊNCIA

LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e história. Em: Antropologia estrutural dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Biblioteca Tempo Universitário.

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