Antes de criticar, analise (direito) o discurso.

O assunto não é novo, mas ainda ouvimos ecos da polêmica gerada por ele, escrevi esse ensaio pro jornal A tribuna de Batatais,  e ela foi publicada na edição de 28 de maio de 2011


A aprovação do novo livro didático de Língua Portuguesa, intitulado Por uma vida melhor, gerou um grande debate sobre o ensino da língua e seu futuro. Um disse que o livro defende o falar errado, e todos saíram reproduzindo o discurso de que agora falar errado estava legalizado e ninguém mais precisa aprender a escrever. Surgiram “especialistas” de todos os lados dando os mais pessimistas diagnósticos sobre a medida: “É o fim do português correto”, “pobre de nossas crianças”. E todo aquele blá-blá-blá de achismos. Todo o mundo saiu por aí prevendo o fim da nossa língua sem ao menos se dar ao trabalho de averiguar os fatos, que no caso seria procurar conhecer o material.

Alexandre Garcia, por exemplo, no auge de seu conhecimento linguístico (a ciência que estuda a língua e seus fenômenos) proclamou o apocalípse linguístico. Sim, o Alexandre Garcia e mais muitos outros pseudo-intelectuais com seus profundos conhecimentos. Profundos como pires, isso sim! Se todos esses críticos de plantão tivessem se dado ao trabalho de ler apenas algumas linhas a mais do que o polêmico trecho em questão teriam percebido que nem o mateiral, nem o MEC, nem ninguém está “soltando as rédeas” do “português correto”.

O material é concebido dentro da norma-culta, e trata das questões gramáticais com seriedade sim. O que ele faz, assim como muitos outros materiais, é explicar as diferenças entre a fala e a escrita. Que são inúmeras mesmo. Nem o falante mais cuidadoso, nem o falecido gramático super conservador Mattoso Câmara Júnior, nem nenhum de nós, reles falantes, por melhor que seja nosso discurso, falamos em total acordo com a gramática. A fala sempre se dá de modo diverso da escrita, principalmente porque as situações entre fala e escrita são invariavelmente diferentes.

Dentre as muitas razões dessa diferença, é o fato da fala ser muito mais dinâmica, não são raros os momentos em que falamos enquanto pensamos no estamos e no que vamos falar. O discurso escrito acaba podendo ser melhor elaborado. O que a obra faz é reconhecer essa diferença, diferença essa que os professores, e muitos materiais didáticos, já levam em consideração em suas aulas. O que o livro fez é o que a sociolinguística faz há pelo menos 50 anos. Portanto não se iludam, nem a polêmica obra nem nenhum outro material de Língua Portuguesa vai nos isentar da nossa necessidade de dominar o discurso, em suas mais diversas situações.

Alexandre Garcia e companhia, por favor, não subestimem os anos de pesquisa e estudo dos autores da obra. Leiam, estudem e se informem antes de sairem lançando ao vento discursos que no fim das contas só fortalecem nossos preconceitos infundados.

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