Liberdade ainda que esdrúxula!

A sociedade ocidental pós-moderna está mesmo à beira do caos, só pode! Pois em que mundo a sensação de liberdade de uma mulher pode estar vinculada a algo tão imbecil quanto ter ou não pelos no corpo? E em lugares simplesmente aleatórios, pois morremos de medo de ter bigode ao mesmo tempo que cultuamos a sobrancelha. Sinceramente me parece impossível compreender uma lógica contundente em tais construções de mundo.

Estou fazendo depilação de luz pulsada, e depois da última sessão, no auge da minha felicidade por poder levantar os braços, usar roupa regata, saia curta, colocar biquíni quando quiser me peguei pensando que droga de liberdade é essa, que coisa mais esdrúxula, chega quase no limite do ridículo algo tão poético quanto a liberdade se relacionar a algo tão pequeno! Mas está! Na nossa sociedade, pelo menos! É como se até agora eu fosse uma marionete e tivesse meus movimentos limitados por cordinhas, no caso, os pelos, após o início do tratamento é como se essas cordas não existissem mais! Trata-se de um sentimento de transformação provavelmente muito parecido com o do Pinóquio quando se tornou menino de verdade!

Essa sensação de liberdade na verdade acompanha uma preocupação, afinal, pelos no corpo influenciar tão diretamente na nossa visão sobre alguém é tão absurdo quanto qualquer outra forma de discriminação. Digo tudo isso ao mesmo tempo que assumo que não foram poucas as vezes que “peitei” a sociedade e saí por aí com as pernas, ou as axilas, ou as duas peludinhas! Mas mesmo sendo consciente da opressão social que a depilação representa, ser flagrada peluda ainda era constrangedor!

E tudo isso por que, Arnaldo? Uai, simples. Em uma sociedade violenta, tomada pelo caos, onde atos de truculência que colocam em cheque a capacidade ética, sentimental e intelectiva do ser humano no mundo pipocam, as pequenas violências do cotidiano, essas amarras sociais, costumam passar despercebidas. E a pergunta que não quer calar: a quem serve minhas pernas carecas? O que elas dizem sobre minha personalidade, meu caráter, e minha higiene mesmo. Nada, homens são peludos (não sei por quanto tempo ainda) e não são sujos por isso!

Estou livre dos pelos e, por tabela, de mais uma amarra social. Mas frustrada com a militante que mora em mim, pois fui vítima consciente de mais uma forma de opressão. Na verdade, as minhas pernas carecas também são opressoras. Todos os dias somos bombardeadas com campanhas, propagandas, matérias de revista sobre a importância da depilação, e um dos argumentos mais frequentes é que temos que agradar nosso parceiro. Nesse ponto sou uma mulher de sorte, pois meu marido é contra depilação, nunca cobrou isso de mim. Mas, ele é apenas um, e ora, quer dizer que além de cuidar da casa, dos filhos, ser um sucesso no trabalho, estar sempre linda e maquiada, ser boa de cama ainda temos que nos submeter a um processo de tortura para agradar nosso parceiro? Tenha a santa paciência! Claro que quero agradar meu parceiro, da mesma forma que quero que ele me agrade, porém não espero que ele se desdobre para isso!

Matéria sobre depilação de virilha (What?)

Nesse lê, lê, lê nós mulheres continuamos na bolha da submissão, na pseudo liberdade que nossa inclusão no mundo do trabalho, e de tantos outros ambientes hegemonicamente masculinos, nos libertou. Penso, às vezes, que nunca fomos tão oprimidas…

Imagem de tipos de depilação na virilha, que agora é cenário artístico!

E por mais estranho que possa parecer, proponho um paralelo com aquilo que Marilena Chauí (linda!) sabiamente explica como alargamento do privado dentro do público, onde o que é íntimo e pessoal se torna público, o fim das fronteiras entre o que é pessoal e o que é público. Ela explica que na nossa sociedade, dominada pelo neo-liberalismo (e isso não é uma alusão ao socialismo) na qual o público é encolhido diante do privado, isso tanto no viés econômico quanto na vida cotidiana. A obrigatoriedade da depilação feminina está diretamente ligada a esse fenômeno neo-liberal, ela atende interesses de mercado, movimenta indústria, serve ao capital. E homens, cuidado! Vocês são a próxima vítima!

Link para o vídeo da Chauí Marilena Chauí sobre a classe média

Brindemos!

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