Um pouco sobre nada, ou tudo, ou sobre viver

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Para começar, escrever na primeira pessoa do singular é algo que sempre me incomodou, mesmo. Não gosto. Parece que qualquer filosofada, por mais de pires que seja, toma tom de verdade absoluta e de que somos muito maduros e esclarecidos dentro desse mundo caótico. E não, niguém está suficientemente maduro, tampouco assim tão perdidos. Ou estamos? Quem pode dizer? Nesse momento o que tenho é um texto em primeira pessoa.

Às vezes tenho a sensação de que meu corpo, palavras e gestos não são suficientes para conseguir existir. Tem hora que sinto que vou transbordar, transcender, outras, apenas explodir. Algumas vezes uma vontade avassaladora me toma a alma e quero viver tudo e muito mais disso que hoje é minha rotina. Tem horas que tudo o que eu queria era minha mochila e a estrada. E recentemente descobri que ela é pequena: um par de sapatos, um de chinelo, três camisetas, dois suéteres, dois cardigãs, um sobretudo e dois lenços para o frio. Duas peças de baixo. Meias, calcinhas, dois sutiãs. Isso para o frio, no calor troca-se todos os apetrechos de lã por um biquine e uma canga. Uma mochila, uma câmera fotográfica e o mundo. Livros, sim, os livros. Pelo menos dois, um para o espírito outro para a criatividade. Uma caderneta. Escrever é bom.

Encontrar o ponto de equilíbrio, dosar os impulsos, olhar para além do caos são os desafios que a vida material nos impõe. E a vida só começa a valer a pena quando iniciamos essa jornada de encontros entre: o que estamos fazendo aqui; qual nosso papel no mundo; o que posso somar ao universo; como faço isso e o que eu quero para mim, qual a minha felicidade? Como faz para achar a fórmula? Tenho muito o que dizer, quase sempre o silêncio diz tudo.

Eu não tenho um amor, não mais. A maioria das pessoas tem, ou pensam que tem. E na última semana no meio dessa frustração pensei que se o sentido da vida realmente consistisse em encontrar o amor conjugal ela seria muito pequena diante da grandeza que é viver e do que podemos fazer por aqui. O casamento não pode ser o objetivo central da vida, não para mim. Mas o que seria então a poesia da vida, onde ela habita se não nos calafrios de um grande amor?

Foi nisso que me coloquei a pensar e até agora só tenho encontrado uma resposta: a poesia da vida está na nossa capacidade de encantamento. Se encantar, apenas isso. São tantas coisas lindas e discretas que passam diante de nós todos os dias que nosso grande desafio parece ser enxergar tudo isso e sorrir, agradecer e querer fazer parte dessa grande obra que é a vida, querer entrar na sintonia do universo, me sentir parte de um todo me deixa muito mais esperançosa em relação ao futuro e meu papel no mundo do que tropeçar no homem do cavalo branco.

Depois desse “cair de ficha” aquela ideia de que não preciso encontrar a metade da minha laranja pois já sou inteira começou a ter mais sentido. Não sei o que vai ser de mim nesse sentido, mas isso já não é mais tão importante quanto encher meu peito de ar, segurar 10 segundos e depois soltar esse ar em mais 10 segundos, ou escrever, ou ler um bom livro, ou dançar, ou brincar com o afillhado, ou cozinhar para minha amiga, ou passear de carro com a tia que quase nunca vejo, ou cuidar das minhas plantas e ver uma flor desabrochar, ou sufocar meus gatos de tanto abraçar, ou botecar com as amigas, ouvir música boa, ou pegar a estrada e depois chegar em casa e encontrar meu irmão, ou trabalhar, ou tomar um café da tarde com pessoas incríveis e depois assistir a um filme, ou parar no meio da tarde e tomar um expresso na janela e ver o céu. Tudo, absolutamente tudo é lindo, imensamente lindo!

E para você, o que é viver?

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  4 comentários sobre “Um pouco sobre nada, ou tudo, ou sobre viver

  1. Érika Mirian Vieira
    abril 5, 2017 às 10:38 pm

    Viver é: Minha amiga cozinhar para mim! ^^

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    • Miraní
      abril 6, 2017 às 1:11 am

      Olha pra vc ver como nóis combina! ❤

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  2. abril 5, 2017 às 11:34 am

    é isso Miraní, não existe a nossa metade porque somos inteiros, solitários e temos cada um a sua caminhada que somente nossos sonhos e pés podem trilhar, com pessoas que escolhemos e nos escolhem para amar… Como diria o querido meste J.G.R, “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”

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    • Miraní
      abril 6, 2017 às 1:13 am

      Diogo!! É isso mesmo velh amigo, a caminhada é longa e deve, no mínimo, ser poética! ;D

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