Enquanto o sono não vem

Tem noites que a canseira é tanta que o corpo não acha posição na cama. É um tal de rola pra cá, estica e puxa que à medida que a canseira aumenta surge uma tensão. A cabeça não desliga, são tantos pensamentos que não se pode nem concluir um e iniciar outro. Vira tudo uma bagunça. Pensamentos, sentimentos, expectativas, frustrações, corpo cansado e cabeça a mil. As pernas doem.

Abajour aceso, ouvindo o barulho silencioso da noite, o zumbido nos ouvidos e o ronco dos animais, única companhia disponível, a saída parece ser a escrita. Não ter com quem falar não é um problema para os sonhadores, ruim é não ter quem ouve. Pior ainda é não ter quem os entenda. Os sonhadores devem ser as criaturas mais solitárias. Certamente são. E ser solitário só é legal na literatura, na vida é bem pesado. Mas pior mesmo é a insônia.

Tem pessoas que de tanto falar sozinha começam a ficar cada vez mais caladas nos espaços públicos, e aos poucos isso vai se estendendo para o privado. Falar só vale a pena  quando vai gerar algo novo, e que seja algo bom. Falar só por falar, só pra ter assunto é coisa de elevador. Não cabe na rotina de quem está em busca de algo, Quem quer somar não fica jogando conversa fora. Conversa tem que ser boa, tem que fazer sentido, tem que dar vontade de sorrir e de fazer o outro sorrir, mas riso bom, de positividade, rir de si, não do outro, o objeto do riso nunca pode ser a dor de alguém, isso é crueldade.

As coisas são mesmo curiosas, ao famoso vigiai e orai, que em linguagem popular poderia significar tenha fé e fique esperto, deveria somar o agir, ou, para seguir o ritmo, o pé na tábua. Pois quando menos se espera, pode tudo virar do avesso. E aí será necessário aprender a apreciar a nova realidade enquanto se coloca tudo no lugar, no novo lugar. Recomeçar faz parte, movimento é o princípio da vida, e se sempre nos encontramos com as consequências dos nossos atos, como prevê a lei do retorno, ao mesmo tempo que estamos arrancando os espinhos a gente precisa continuar plantando flores se quisermos ter beija-flor no jardim.

Mas é preciso mais que um lindo jardim, é preciso coragem para fazer florecer no mundo alguma coisa de bom, já que o excesso de materialidade acabou por transformar a humanidade em bestas, o apocalipse zumbi não é coisa de americano aficcionado, é metáfora dos dias de hoje. Não se sente mais, não se ama mais, não se cuida mais. O cuidado não é mais uma rotina, magoar o outro é banalidade, é tão natural quanto ir ao banheiro. Não faz mais diferença, ninguém mandou a pessoa se expor. A culpa é do outro que confiou, que se entregou e que falou a verdade. É a pós-modernidade, amiguinho, é tudo culpa dela. Não deu pra perceber ainda que ser honesto é coisa de gente boba?

Infelizmente, tem cada vez menos gente boba no mundo.

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